O mítico, o imutável, o inigualável, o europeu, o tradicional, o agridoce, o sem-salada, o que te deixa arrotando até terça-feira, o inconspícuo, o ame ou odeie, o restaurante húngaro A Canga!
Bom, este vai ser uma megaboga post, pois (por vários motivos) é um restaurante especial pra mim. É especial pois é o lugar que fez com que eu me interessasse por culinária. Minha mãe me deixou de herança muita coisa, e a vontade de experimentar comidas novas é uma delas, e sou muito grato à ela por ter sempre me incentivado e levado à lugares interessantes quando eu era pequeno.
Em segundo lugar, uma história interessante: enquanto eu e a Rebeca estávamos ainda “fazendo a dança do acasalamento”, estávamos jantando com amigos e conversando sobre restaurantes, e eu disse:
-Conheço um restaurante que ninguém conhece, de comida húngara!
Rebeca me olhou e perguntou:
-Não é um que fica em São Sebastião do Caí? A Canga?
Meu queixo caiu….era a PRIMEIRA vez que alguém conhecia! Quem estava lá diz que dava pra ver os coraçõezinhos se formando à nossa volta….hehehehehe
E por fim, a raridade. Já ouvi falar que é o único restaurante de comida húngara do Brasil, o que me parece um pouco de exagero, (apesar de eu nunca ter ouvido falar em outro) mas certamente é o único que eu conheço. Mas vamos deixar de rodeios e falar do restaurante!(Clique nas fotos se quiser ver melhor.)
Quem olha de fora não dá nada por ele, já que nome não dá nenhuma dica e externamente parece como qualquer outro restaurante de beira de estrada.
Sim, você leu certo. O restaurante tem 40 anos. E praticamente NADA mudou nestes 40 anos. Obviamente que eu não sei como era quando abriu, mas conheço gente que vai lá desde que abriu.
Segundo o tradutor on-line que eu usei, “délvidéki magyar konyha” quer dizer algo como “cozinha magyar sulista”. Pra quem não sabe, Magyar é a principal etnia que compõe o povo húngaro.
Ainda segundo o tradutor, “Jó Étvágyat” quer dizer algo como “Bom apetite”.
Depois de todos estes anos indo comer lá, é fácil de ver quem está indo pela primeira vez: é aquele que pede o cardápio, ou pior ainda, que acha estranho que não tem salada. E agora aproveito para fazer uma pausa e um aviso: não é para qualquer um. É uma comida muito característica, o cardápio é fixo, os sabores são marcantes e o restaurante é honesto, com mobília e decoração espartanas.
E um banheiro assustador.
Então se você procura sofisticação, procure em outro lugar. Se você quer uma comida diferente e deliciosa, PODE ser que você goste. Juntou coragem e entrou? Agora vem o segundo choque para os menos aventureiros: o cardápio.
Não diz muita coisa, né? “Um monte de consoantes e acentos…Prato frito? Prato Cozido? Onde diabos eu me meti? Vou matar este guri!” CALMA! Está tudo escrito ali (e depois eu falo mais de cada prato)!
Aprolék leves = sopa de miúdos de galinha
Töltött paprika = pimentão recheado
Rántott Csirke = galinha empanada com batata frita
Fagylaltos = bolo com sorvete caseiro
Respirou fundo e sentou? Tá, depois de um tempinho (ou um tempão…o serviço lá é inconstante, único defeito do lugar) a comida começa a chegar.
Como eu disse antes, na sopa tem miúdos defumados de galinha (eca) e pescoço de galinha (eca de novo), mas você pode fazer como eu eu simplesmente separar e não comer.
Eu prefiro comer a massinha que vem junto. parece um gnocchi pequeninho. O caldo tem bastante páprica e tempero verde desidratado.
Nas noites de inverno eu ia adorar um prato destes! Não se empolgue e tome um monte de sopa, guarde lugar para o que vêm depois.
A atração principal, a pièce de résistance, o pimentão recheado.
Receita secreta do Sr. Károly Cvitkó, que veio para cá fugido da invasão russa de 1956, o pimentão recheado desafia quem tenta fazer em casa, e pedidos da receita são recebidos com um sorriso, mas nunca atendidos. O máximo que sabemos é que é utilizada páprica trazida da Hungria e que o recheio (que leva arroz e carne) é cozido dentro do próprio pimentão. O molho é um espetáculo à parte: grosso, com uma linda cor vermelha e um sabor adocicado que combina perfeitamente com o pimentão verde.
Novamente, guarde lugar no estômago para os outros pratos. Conheço gente que tem a perna oca que já comeu 9 pimentões, mas eu nunca consegui passar de 3. Ah, e use roupa escura, roupas brancas não são aconselhadas.
Seguindo no desfile de delícias, agora chegou a hora da galinha empanada e das batatas fritas.
A galinha tem uma “casca” grossa e um dos pedaços tem miúdos, que a gente chama carinhosamente de “aquele”. A batata é cortada em pedaços grandes e o bom é destrinchar um dos pedaços de galinha e cobrir com o molho do pimentão. Obviamente que isto também funciona com as batatas.
Pra completar, a sobremesa:
Na verdade é bem simples: um pedaço de bolo com chocolate e meia bola de sorvete de creme com chocolate em cima. Tudo feito lá mesmo, é claro.
Tudo isto pode ser comido à vontade, pela quantia módica de R$17 por pessoa e não é cobrado 10% de serviço (que eu acho uma palhaçada quando é cobrado). O restaurante funciona apenas para almoço nos fins-de-semana.
Restaurante Húngaro A Canga
RS 122, KM 09
São Sebastião do Caí, RS
fone: (51) 3536 1461
Aviso de utilidade pública: O consumo de pimentão verde pode causar eructação de gases venenosos por aproximadamente 3 dias. Na viagem de volta já começa-se a sentir os efeitos. Você não vai querer jantar, mas vai querer ir de novo.
View Larger Map